Banda: White Stones – Álbum: Dancing into Oblivion (2021 – Shinigami Records/Nuclear Blast)

Resenha por: Uillian Vargas

Praticamente abrindo o segundo semestre desse estranho ano de 2021, White Stones nos entrega o Dancing into Oblivion. Mas calma aí, vamos começar pelo início. Essa banda/projeto, nascida na Catalunha (Barcelona- ESP), surge dos devaneios e desespero musicais de Martin Méndez, mais conhecido por comandar o baixo na banda Opeth, desde 1997 (um dos mais antigos membros da banda).  Apesar da White Stones ter nascido na Espanha, saiba que Carlos Martín Méndez Esposito é Uruguaio da cidade de Montevideo. Méndez é reconhecido entre os fãs por duas características: usar um baixo Fender de jazz (fretted e Frettless) e pela sua calma, praticamente silenciosa, presença de palco. Quem sabe foi todo esse silêncio que extravasou em forma de composições para o White Stones?

 A White Stones é uma jovem banda que ganhou vida em 2019 e desde então tem mantido a frequência dos lançamentos. Vamos dizer que os músicos tiveram o ano de 2019 para se entrosarem e se “encontrarem”, em 2020 lançaram o maravilhosamente indigesto Kuarahy (com participação do Fredrik Åkesson na guita) e em agosto de 2021 então, eis que veio o Dancing Into Oblivion. Apesar de, os dois lançamentos contarem com participações especiais, a banda é composta pela receita mágica: Um tremendo Power Trio. Confesso que tenho tendencia a gostar dessa formação que, por muitas vezes, provoca a intrigante questão:

- Como somente 3 pessoas conseguem fazer algo tão complexo e barulhento?

E para todos vocês que são do metal, os quais vos saúdo, sabem do que estou escrevendo. De Rush à Krisiun, as tríades, quando se encontram nos caminhos da sonoridade, não deixam pedra sobre pedra. Ou melhor ainda, na contramão da devastação, edificam sonoridades imortais. Não por acaso um caldeirão, símbolo da vida em forma de alimento e calor, tem 3 pernas (já observou?). Pois então,  é na formação de um trio que a banda sustenta toda complexidade e genialidade sonora, que Martin deu vida para as melodias e ideias acumuladas durante algumas décadas sob a escola “Åkessoniana”. Para quem está esperando uma continuação do Kuarahy (lembra sonoridade de uma cidade do sul do BR -Quaraí), talvez se impressione ao se deparar com algo do tipo “algo mais”. Mesmo porque, é difícil comprara trabalhos, pois suas referências e inspirações podem não se comunicarem. Dancing Into Oblivion surge como um singelo estandarte do Death Metal Progressivo e traz nuances sonoras muito particulares e cheias de identidade. É possível  perceber que em alguns momentos remete, sim, às referencias características do estilo e claro, uma pitada de Opeth, mas não se surpreenda com os momentos de calmaria dignos de uma composição de jazzista Miles Davis. O que se percebe é que a sonoridade do disco traz muitas citações do rock progressivo setentista. Claro, reescritos com a modernidade da nossa atualidade. Afinal de contas, as referências, para nós, pós-modernos, são uma espécie de “óculos”. As vestimos e então decidimos o que queremos enxergar com elas.

O disco abre com “La Menace”, um compêndio de sonoridades escuras, pesadas, frequências incômodas, que muito lembram aqueles segundos, antes do susto, em um filme de suspense. É uma boa maneira de entregar um aviso ao ouvinte. “Cuidado! Pise firme no próximo degrau da escada abaixo”. Já que o disco é um convite ao esquecimento, não custa nada ter um pouco de cuidado ao percorrer esse caminho.

“Chain of Command”, além dos elementos já citados, apresenta um solo de guitarra simples e excelente. Desses que faz com que procuremos o nome do guitarrista no encarte. Calma, vamos te poupar esse trabalho. O nome do homem é João Sassetti, prestem atenção nesse nome (risos).  

Em “Iron Titans”, enquanto a batera e a guita criam todo um clima musicalmente habitável, o baixo do chefe passeia tranquilamente pelo som inteiro, visitando todos os cômodos  dos outros instrumentos e preenchendo a música  de forma magnífica. Para muito além da sonoridade, há a velha técnica do jazz presente nessa música. Os primeiros minutos do som preparam o ouvinte para se desapegar de padrões sonoros. Ou seja, não permite que o ouvinte se “encaixe”, essa é a ideia. Para então, após uma pausa compassada, aos  três minutos de música, se apresentam os degraus do tártaro em forma de um poderoso gutural. Adiante falaremos mais sobre o  dono dessa poderosa voz. Prestem atenção no baixo deste ponto em diante do som. Ele deixa de ser um simples coadjuvante. Esse é aquele tipo de música que pode causar euforia, use sem moderação!  

Dancing Into Oblivion é um grande exercício de experimentação e explorações de curiosidades. Cheio de velocidade, mas de pausas estratégicas também. Repleto de peso e agressividade, que se afirmam na leveza de alguns riffs cadenciados do próprio Martin (que fez guita base em todos os sons), a exemplo da “To Lie is to or to die”. Dá uma sacada na dinâmica desse som, é incrível. Primeiramente Martin usa o baixo para mostrar o caminho, para uma locomotiva desgovernada chamada Joan Carles na batera. Então retorna e coordena um riff na guita que é clareador, que acaba vindo para o primeiro plano logo após o começo som. Sassetti sedimenta a execução com um solo digno da feracidade da música. Esse som é uma “experiência auditiva”.

O grande suspiro final do disco acontece conduzido pela mão de “Freedom in Captivity”. Minutos iniciais que te levarão para passear entre a calmaria de acordes de guitarra muito bem orquestrados para uma reprodução suave. Suavidade, essa, quebrada pelo estrondoso vocal de Eloi Boucherie. Enquanto vocalista e sustentador desse vocal poderosíssimo, Eloi também presenteou o disco escrevendo todas as letras. Aí está construída então a espiral da loucura que vai te conduzir até o final da bolachinha. E há de notar essa insanidade nos contrapontos nervosos que se encontram  em algum lugar entre o Death Metal e o Free Jazz (que Peter Brötzmann não nos ouça). O disco foi composto pensado no caos e incerteza que significou o período em que ele nasceu. Historicamente o Uruguai foi muito castigado pela ditadura militar (ou civil militar, como guardam os registros) entre os anos de 1973 e 1985 (Martin nasceu em 1978). É provável que o disco traga à tona todas essas angústias e os gritos dos que nunca puderam gritar.

Mencionei que o suspiro final seria ao som de “freedom in Captivit”, pois a brisa mansa, chamada “Acacia” (de fato o último som do disco) se achega somente para desligar o interruptor. É quase um passeio pelas pradarias numa manhã de verão, com o vento gelado da primeira hora da manhã acariciando o rosto. “Acacia”, puxa o plug da tomada depois que  “freedom in Captivity” fez as verdadeiras honrarias do adeus!

Versando sobre a construção melódica do Dancing Into Oblivion (algo como “dançando em direção ao esquecimento”), o nome faz muito sentido. Já que cada som segue sua própria estrada,  para desembocar no mesmo ponto de chegada. Cada nova faixa é um convite ao esquecimento da anterior. Viva o agora, viva essa faixa, depois volte e reviva,  repita. E você vai repetir. Sabe por quê? O disco  tem pouco mais de 35 minutos, distribuídos em 8 faixas. É como assistir um filme Argentino:

-  Entrega a mensagem, é uma viagem gostosa de trilhar, faz você  pensar e quando você menos esperar, ele acabou.  Sinceramente, uma receita impecável e infalível. Faixas moderadamente longas preservando a característica progressiva, mas num trabalho completo que não torna  a audição exaustiva.

Mas não espere que o disco agrade a todos, muito cuidado ao indicar a audição para aquele amigo chegado no “metal pesado”. Dancing Into Oblivion é um desses trabalhos que não está muito  amarrado às convenções musicais,  até aqui estabelecidas. O que é interessante destacar é que esse é o tipo de disco que vai dialogar diretamente com todo repertório de vida acumulado pelo ouvinte, até a contemporaneidade do disco. Seu “HD” mental e musical vai, naturalmente, buscar ancorar esse disco em trabalhos já ouvidos ou vistos.

O ideal é você aceitar o convite que o disco te faz. White Stones vai te conduzir muito bem nessa cruzada sonora, até que você (se) descubra ou não, uma maneira de se encontrar nas composições . A percepção clara é que houve um crescimento exponencial em termos de criação e criatividade em relação ao Kuarahy. Ah, e o disco não se perde somente entre peso e técnica, vais sentir que tem muito sentimento e melodia também.

No Brasil, o disco chega pelas mãos da Shinigami Records, numa edição muito bem elaborada contendo o “obi”, vale a pena conferir.

 

LineUp:

Martín Méndez – baixo e guita base

Eloi Boucherie – vocal

Joan Carles Marí Tur – bateria

Músico convidado:

João Sassetti – guitarra solo.

 

Todas as músicas compostas por Martín Méndez

Todas as letras criadas por Eloi Boucherie

 

Tracklist:

1. La Menace - 02:16     

2. New Age of Dark - 04:54        

3. Chain of Command - 04:40    

4. Iron Titans - 08:43      

5. Woven Dream - 02:11             

6. To Lie or to Die - 04:57             

7. Freedom in Captivity - 06:30 

8. Acacia - 01:35              

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