Por: Amanda Vasconcelos
Fotos: Edu Lawless
Em sua quarta edição, agora com dois dias de evento, o Bangers Open Air 2026 proporcionou uma experiência completa ao fã de metal, reunindo atrações nacionais e internacionais escolhidas a dedo e distribuídas entre os quatro palcos do Memorial da América Latina: Hot, Ice, Sun e Waves Stage. Da quantidade de palcos agora acessíveis a todos do festival, já se observa a tamanha proporção do evento, evidenciando o quanto o festival vem crescendo a cada edição. Consequentemente, esse crescimento também exige cada vez mais atenção em relação à estrutura e às logísticas, para que o banger consiga vivenciar momentos épicos com conforto e a melhor experiência possível ao longo do festival. Ao chegar, fui ao espaço destinado à retirada da pulseira de imprensa. O processo foi realizado com muita agilidade, o que me permitiu acompanhar o festival desde o princípio.
A primeira atração do palco Sun Stage foi a banda alemã Lucifer. E foi justamente como sugere o nome do palco, sob o sol do meio-dia que o Lucifer nos conduziu a um mergulho estético e sonoro nos anos 70. Se em outros shows em terras tupiniquins, a frontwoman Johanna Sadonis parecia mais distante e soturna, desta vez a vocalista surpreendeu com uma postura extremamente carismática. Sorridente, comunicativa e claramente confortável no palco, ela criou uma conexão imediata com o público, elogiando a energia e "os rostos felizes brilhando nos raios de sol". Uma querida! A banda, que ao longo dos anos passou por constantes reformulações em sua formação, demonstrou um entrosamento impressionante em sua configuração atual, que majoritariamente é feminina. Com naturalidade e uma presença de palco extremamente marcante, sustentaram faixas como “Riding Reaper”, “At The Mortuary” e a expressiva “California Son”, que gerou forte interação da plateia através de palmas acompanhando o ritmo da música.
Os cabelos esvoaçantes de Johanna impulsionados pelo ventilador no palco formaram durante a apresentação, uma atmosfera quase cinematográfica, ainda mais reforçada nesta faixa. Próximo do encerramento, a banda ainda presenteou o público com “Goin’ Blind”, clássico do Kiss, antes de finalizar a apresentação com “Fallen Angel”, encerrando o show de maneira praticamente impecável. Foi uma performance memorável para quem teve a sorte de estar presente. Infelizmente, uma quantidade considerável de fãs não conseguiu assistir ao show devido à demora na liberação das filas de entrada, situação que gerou diversas reclamações. O problema também impactou quem pretendia acompanhar o show do Korzus, que iniciou sua apresentação simultaneamente no Ice Stage.
Seguindo para o Hot Stage, os suecos do Evergrey iniciaram pontualmente às 13h. “Falling From the Sun” foi a escolhida para abrir o show e rapidamente empolgou os fãs, que responderam com braços erguidos e cantando junto logo nos primeiros minutos, provando ter sido uma escolha certeira para dar início à apresentação. A banda de prog metal, que recentemente também passou por mudanças em sua formação, apresentou oficialmente o baterista Simen Sandnes, trazendo uma pegada mais intensa às músicas, além do guitarrista Stephen Platt, que anteriormente acompanhava o grupo como músico convidado e agora assume definitivamente a posição. A sintonia entre os integrantes no palco e a carga emocional transmitida fizeram com que o show fosse amplamente elogiado pelos presentes. Entre os momentos mais aclamados estiveram “King of Errors” e “Call Out the Dark”, ambas recebidas com entusiasmo, embora sejam sons mais densos. Em diversos momentos, o vocalista Tom S. Englund incentivava o público a cantar junto, fortalecendo ainda mais a proximidade com quem os assistia. O encerramento ficou por conta de “Oxygen”, que, mesmo sendo uma faixa relativamente recente, demonstrou já ter conquistado espaço entre os fãs.
O lounge, àquela altura do festival, já contava com uma ocupação considerável, o que tornou a circulação entre os espaços ainda mais intensa. Foi nesse momento que migrei para a sala de imprensa, localizada dentro da biblioteca do Memorial da América Latina, e a estrutura disponibilizada aos profissionais surpreendeu positivamente. O espaço contava com um auditório amplo, confortável e com lugares suficientes para que cada jornalista pudesse trabalhar com tranquilidade, além de mesas de apoio para notebooks, tomadas bem distribuídas e armários destinados ao armazenamento de equipamentos, todos com suporte para cadeado. A preocupação com o bem-estar da imprensa também ficou evidente na área de alimentação, que oferecia frutas, salgados, lanches, café, leite e um freezer abastecido constantemente com água, energético, Coca-Cola e até mesmo Heineken Zero.
De volta ao Hot Stage, agora com o lounge completamente tomado pelo público, às 15h20 os ucranianos do Jinjer subiram ao palco transformando o calor escaldante do Memorial da América Latina em combustível para uma apresentação avassaladora. Sem qualquer introdução tímida, a banda abriu os trabalhos com “Duél” e “Green Serpent”, faixas recentes que já chegaram esmagando tudo com sua mistura caótica de técnica, groove e brutalidade. Liderando o turbilhão sonoro, estava Tatiana Shmayluk, hipnotizante do início ao fim. Ao mesmo tempo em que desfilava pelo palco usando seu vestido rosa rendado e corset vermelho, transmitindo delicadeza quase etérea, alternava vocais limpos e guturais viscerais. Entre um som e outro, agradecia, distribuía corações para o público e dançava. Em contrapartida, os parceiros de banda estavam visualmente discretos, entretanto entregavam uma performance técnica absurda e cirúrgica. Faixas como “Vortex”, “Teacher Teacher!” e o hit “Pisces” elevaram ainda mais o termômetro do show, unindo um peso colossal a uma execução técnica exímia. Do lounge, o som parecia vibrar no peito de tão encorpado. Mesmo demonstrando certo desconforto com o calor intenso que atingia diretamente o palco, Tatiana manteve a energia até o fim e encerrou agradecendo ao público por resistirem ao sol, assim como a banda. E foi em uma hora de show, sob o sol ardente e diante de um público completamente em êxtase, que o Jinjer provou que intensidade e sensibilidade podem coexistir perfeitamente dentro do metal moderno, consolidando a banda como um dos grandes destaques do festival.
No Ice Stage, palco vizinho ao Hot, e com apertados dez minutos de diferença entre as apresentações, os americanos do Killswitch Engage já chegaram literalmente com os dois pés no peito. A abertura com “Fixation on the Darkness” foi estrondosa e serviu como um aviso claro do que estava por vir dali em diante. A essa altura do festival, o calor já parecia mero detalhe diante da energia absurda que tomava conta da pista. Diferente da proposta do Jinjer, o Killswitch apostou em uma presença de palco intensa e constante por parte de todos os integrantes, transformando o show praticamente em um caos organizado. O grande destaque visual ficou para o guitarrista Adam Dutkiewicz, que surgiu usando uma faixa rosa na testa e a bandeira do Brasil como se fosse sua própria capa de super-herói. E fazia sentido: os caras entregaram absolutamente tudo naquele palco. A banda de metalcore foi extremamente certeira na escolha do setlist. Faixas como “In Due Time”, “This Fire” e o hit absoluto “My Curse” levaram os fãs ao delírio, com uma plateia completamente entregue do início ao fim. Para fechar, a banda ainda mandou o clássico cover de “Holy Diver”, eternizado por Dio, encerrando a apresentação de maneira explosiva e deixando o Ice Stage sedento por mais.
Sem muito espaço para recuperar o fôlego, às 17h50 era a vez do Black Label Society tomar conta do Hot Stage. E Zakk Wylde já havia dado o ar da sua graça antes mesmo do show começar. Minutos antes, subiu rapidamente para gravar com seu celular, a imensidão do público presente no festival, demonstrando empolgação pelo que estava prestes a acontecer.
Já durante o show, usando seu tradicional kilt e colete (suas marcas registradas), Zakk surgiu imponente, praticamente como uma divindade. A escolhida para abrir os trabalhos foi “Funeral Bell”, seguida por faixas mais recentes como “Destroy & Conquer”, executada enquanto o músico cantava em um pedestal coberto por caveiras e coroado por um crucifixo, compondo perfeitamente a estética da banda. Entre os momentos mais aguardados da noite estavam as homenagens. A primeira delas veio com “No More Tears”, clássica de Ozzy Osbourne, executada com toda a fritação característica de Zakk e dedicada aos tempos ao lado de seu eterno mestre. Na sequência, “In This River”, performada ao piano, transformou o festival em um momento de pura emoção ao homenagear os irmãos Abbott, com imagens de Dimebag Darrell e Vinnie Paul estampadas no telão. Mais adiante, a pedrada “Fire It Up” trouxe um clima mais descontraído e interativo, contando com bolas infláveis sendo lançadas para o público. Já caminhando para o encerramento, a imagem de Ozzy Osbourne surgiu no telão, deixando evidente que a próxima faixa seria “Ozzy’s Song”, lançamento recente do Black Label Society em homenagem ao músico, que nos deixou em 2025. Ao final da canção, Zakk se virou para o telão, levantou os braços, bateu palmas e incentivou o público a gritar “Ozzy” cada vez mais alto. Foi daqueles momentos além da música, em que nos sentimos parte de algo maior... Foi lindo de ser ver! E por fim, “Stillborn” encerrou a apresentação de maneira poderosa, consolidando o Black Label Society como um dos shows mais aguardados e mais impactantes de todo o festival.
Dada a dimensão do Bangers Open Air, é muito importante mapear com antecedência os shows que deseja assistir, uma vez que ocorrem muitas apresentações simultâneas. Infelizmente não consegui acompanhar tanto quanto gostaria os palcos Sun e Waves, que contava com grandes nomes. O Waves Stage, por si só, já traz uma atmosfera diferente e intimista para o show por se tratar de um teatro. Após o Black Label, consegui assistir as duas últimas músicas da banda americana Seven Spires, liderada pela Adrienne Cowan, também vocalista do Avantasia. Confesso que "Architect of Creation" me arrancou uns "eitas" bem sinceros pelo seu peso descomunal e "Love's Souvenir", boas lágrimas. Que performance linda! A banda completamente conectada ao público, assim como a Adrienne presente em totalidade, entregando nuances intensas que abalou as estruturas de quem os admirava ali de baixo. Lamentei não ter conseguido conferir o show completo, mas feliz por ter conhecido uma banda que definitivamente conquistou minha atenção.
Outra excelente banda que gostaria de ter acompanhado no Waves Stage foi Marenna, banda gaúcha de hard rock a qual tive o prazer de conhecê-los pessoalmente e auxiliar o Gabriel (Road To Metal) na gravação de uma entrevista com o vocalista, Rod Marenna. E esse é justamente um dos pontos mais interessantes do Bangers Open Air: a proximidade quase inesperada entre artistas, imprensa e público. Ao caminhar pelo Memorial, era extremamente comum encontrar músicos e nomes importantes da cena circulando tranquilamente pelo recinto, criando oportunidades espontâneas de troca e interação. Durante o dia, acabei encontrando Alexander Krull (Atrocity), Mayara Puertas (Torture Squad), Fabio Lione (Ex-Angra), a própria Johanna Sadonis (Lúcifer) e até Thomas Jensen, criador do Wacken Open Air. São encontros que enriquecem muito a experiência de quem está vivendo o festival, tornando tudo ainda mais próximo. Aproveitando para circular um pouco mais pelo evento, também foi possível perceber uma estrutura muito bem servida em relação às lojas de merchandising, espaços de tatuagem e opções de alimentação espalhadas pelo Memorial. Com esse pequeno “tour” encerrado, era hora de retornar ao Hot Stage para acompanhar um dos shows mais aguardados da noite: o Arch Enemy.
O posto de headliner do sábado ficou nas mãos do Arch Enemy, escolhido para substituir o Twisted Sister após os problemas de saúde enfrentados por Dee Snider. Em frente ao palco, a clássica faixa estampando “Pure Fucking Metal” já deixava claro que o encerramento da noite seria grandioso. A expectativa também girava em torno da estreia de Lauren Hart nos palcos brasileiros ao lado da banda. Logo na abertura com “Yesterday Is Dead and Gone”, Lauren já se mostrou à vontade assumindo este papel. Não demorou muito para que o público gritasse seu nome, como se há tempos ela já fizesse parte da banda, entregando uma performance sensacional. Embora com uma postura mais introspectiva do que suas antecessoras (Johan, Angela e Alissa),ainda assim demonstrou enorme carisma, sentindo-se abraçada. A banda sueca, tecnicamente, performou com toda a excelência esperada, correspondendo totalmente às expectativas e surpreendeu na escolha das músicas: um setlist que transitou muito bem entre diferentes fases da carreira. A única ressalva ficou por conta do som excessivamente estridente em determinados momentos, o que acabou dificultando a percepção mais clara de alguns trechos das músicas. Destaque especial também para “To The Last Breath”, novo single que ganhou enorme repercussão após a polêmica envolvendo Kiko Loureiro e as acusações de plágio. Ao vivo, porém, a música mostrou que vai muito além da controvérsia, funcionando perfeitamente dentro da proposta atual da banda e demonstrando potencial para se tornar constante nos próximos setlists. E momentos como “Blood Dynasty”, “My Apocalypse”, “The Eagle Flies Alone”, e a soberana “Nemesis”, incendiaram completamente o público. Ao final da apresentação, fomos homenageados com uma mensagem no telão: "Tamo junto, Brasil". Épico e memorável!
Com aquele verdadeiro gosto de quero mais, encerrava-se o primeiro dia do festival, deixando no ar a sensação de que o Bangers Open Air ainda tinha muito a entregar no domingo, e aumentando ainda mais a expectativa para tudo o que ainda estava por vir.
Agradecimentos:
• Agência TAGA
• Bangers Open Air

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