Bangers Open Air - 26/04/26 - Memorial da América Latina (SP)

Por: Amanda Vasconcelos

Fotos: Edu Lawless

Fotos Angra: Marcos Hermes

O segundo e último dia do Bangers Open Air 2026 já começou mostrando que alguns ajustes importantes haviam sido feitos em relação ao sábado, principalmente na agilidade da liberação da entrada do público. Isso tornou a experiência muito mais tranquila, especialmente considerando que o calor seguia tão intenso quanto no dia anterior. Outro ponto extremamente positivo foram as tradicionais Signing Sessions, que mantiveram o mesmo esquema da edição passada, disponibilizando 100 fichas por banda, o que possibilitou aos que se programaram estarem mais pertinho dos seus artistas preferidos, o que é o máximo! Novamente tive uma excelente experiência com a agilidade na liberação da pulseira de imprensa.

No Sun Stage, às 13h40, iniciava-se o aguardado show de Roy Khan, artista que vem marcando presença constante no Brasil nos últimos anos, seja ao lado do Conception, nas participações especiais com Edu Falaschi na turnê de Temple Of Shadows ou até mesmo em colaborações recentes, como no single “Lunar Vortex”, da talentosíssima Maestrick. No Bangers, Roy entregou exatamente o que os fãs esperavam: um espetáculo dedicado aos clássicos do Kamelot, carregado de emoção, densidade e nostalgia. Acompanhado pelos músicos do Seven Spires e contando ainda com os brasileiros Juliana Rossi e Fabio Caldeira nos backing vocals, o vocalista mostrou estar em plena forma. Clássicos como “When The Lights Are Down”, “Soul Society” e “Ghost Opera” não ficaram de fora, aliás, faltando algumas músicas para o final do show, Roy trouxe a excelente notícia de que em outubro estaria de volta ao Brasil, até então sem maiores detalhes, deixando o show ainda mais emocional. Em outras faixas, como “The Haunting (Somewhere In Time)”, contou com a participação de Adrienne Cowan (Seven Spires), e claro, em um encerramento que não poderia ser mais épico, “March Of Mephisto”, que além de contar com a entrada de Roy com seu icônico sobretudo, ainda contou com Alexander Krull (Atrocity) fazendo a voz que originalmente seria de Shagrath. Um verdadeiro deleite para fã nenhum botar defeito.

Ainda no Sun Stage, às 15h20, um show que como boa apreciadora de hard rock eu não poderia deixar de conferir é o do Crazy Lixx, que foi uma das poucas (e certeiras) escolhas para representar o estilo no festival. O visual e sonoridade característicos do verdadeiro hard rock 80 somados ao carisma e onipresença de palco dos integrantes (sim, todos eles, sem exceção) tornou o show da banda sueca organicamente o mais magnético em termos de experiência, tudo isso contando com poucos recursos de palco em comparação a outras atrações do festival. Diversas canções foram executadas pelos suecos com excelência técnica, coreografias e refrões que facilmente todos aprendemos no decorrer da própria música e reproduzimos uníssonos. “Hell Raising Women” e “Whiskey Tango Foxtrot” foram grandes exemplos disso. Infelizmente, por conta do show parte da turnê de despedida do Winger, que iniciaria às 16h05 no Ice Stage, precisei deixar o show antes do fim, o que sinceramente me entristeceu, já que o Crazy Lixx merecia ter sido assistido até o último minuto. Fica aqui também uma ressalva importante sobre os conflitos de horário entre bandas do mesmo gênero, algo que poderia ser revisto em futuras edições para que atrações tão fortes não acabem “competindo” diretamente entre si.

Chegando ao Ice Stage, já tomado por um lounge repleto de fãs ansiosos pela despedida do Winger, a banda iniciou sua apresentação com “Stick the Knife In and Twist”, do álbum Seven, trabalho que marcou o retorno de Paul Taylor (teclado) à formação. Na sequência, os norte-americanos mergulharam de vez no repertório clássico do final dos anos 80 e início dos 90, priorizando justamente a fase que eternizou a banda dentro do hard rock. A escolha do setlist foi extremamente cuidadosa e nostálgica, transportando o público diretamente para outra época através de músicas como “Time To Surrender”, “Easy Come, Easy Go” e, claro, a balada mais aguardada da noite: “Miles Away”. Antes da execução da faixa, Kip Winger (vocal e baixo) fez questão de destacar a importância de Paul em sua composição, tornando o momento ainda mais especial. Em certos pontos do show, abriram espaço para solos de bateria e guitarra, e em um desses momentos, Reb Beach (guitarrista), estava entregue a seus solos, e Kip aparece o gravando na lateral, admirando seu amigo tocar. Tinha momentos em que ambos conversavam durante as músicas executando sequências absurdas na guitarra, tamanho a habilidade e virtude dos músicos, o que se estende também a Rod Morgenstein (bateria) e Howie Simon (guitarra). Pudera: beirando 40 anos de estrada e muito mais exploradores musicalmente, transitando entre estilos e sendo mais do que o que a indústria era capaz de nomear. E foi justamente “Madalaine” que marcou não apenas o encerramento do show, mas simbolicamente também o encerramento de um legado gigantesco. Talvez seja isso que torne uma turnê de despedida tão dolorosa: perceber que a banda segue tecnicamente impecável, inspirada e plenamente capaz de continuar. Ainda assim, Kip, que hoje também se dedica fortemente à composição de música clássica, aparenta estar realizado com esse novo capítulo de sua vida, o que provavelmente reforça sua decisão. Mas, como todo fã bem sabe, a esperança é sempre a última que morre. Resta a torcida para que seja um até logo.

Novamente, sem muito tempo para respiros, às 17h15, o hard rock com fortes influências de blues rock seguia em ascensão no festival com os aguardados veteranos Adrian Smith (Iron Maiden) e Richie Kotzen (Winery Dogs), dois grandes ícones do rock, surgindo no Hot Stage em seu projeto Smith/Kotzen e mostrando uma sintonia absoluta. Depois do sucesso de seu álbum de mesmo nome em 2021, agora estão em turnê de seu álbum “Black Light / White Noise”, que completou um ano há pouco. O projeto, que agora tem 50% de sangue brazuca, conta com a digníssima esposa de Kotzen e membro do Vixen, Julia Lage (baixo) e o habilidoso Bruno Valverde (bateria), que neste dia fazia jornada dupla pois também tocaria com o headliner do festival, o Angra. A eleita para abrir o show foi “Life Unchained”, seguida de outras excelentes faixas deste álbum: “Black Light”, a qual Julia declarou que não podia faltar e “Blindsided”, eleita por Bruno a que mais gostaria que tocasse, pois foram faixas que contam com suas contribuições e por isso, tão queridas. “Wraith” tocou nesse meio tempo e chamou muita atenção pela sua atmosfera setentista. “Taking My Chances”, hit do primeiro álbum, obviamente não faltaria e fez a alegria dos fãs, que cantaram o refrão de forma fervorosa. É hipnotizante ver a maestria dos dois e o quanto eles de fato são complementares nos jogos de vozes e na química que compartilham no palco. Neste palco, como havia uma passarela, os músicos protagonizaram momentos marcantes pelos quais podíamos acompanhá-los performando seus mais complexos solos. Logo após a emblemática “Scars” e a indispensável “Running”, tivemos uma saideira que agradou especialmente os fãs de Iron Maiden. “Wasted Years” encerrou esse espetáculo, com uma nova roupagem e uma celebração imensa de dois músicos que vivem uma parceria que literalmente soa como uma jam despretensiosa entre amigos em um fim de semana qualquer, só que protagonizada por duas lendas.

Encerrando os trabalhos no Ice Stage, às 18h25, o Within Temptation apresenta com um show de fato diferente do que trouxe em 2024, no até então Summer Breeze. A abertura ficou a cargo da “We Go To War”, na qual a frontwoman Sharon den Adel surgiu com uma máscara de espinhos, plenitude vocal e domínio cênico gigantesco. Desta vez, o set conseguiu agradar amplamente a fanbase, transitando entre o antigo e o novo, contando com adições que estavam há muitos anos fora do set, como “The Howling” e “Forsaken”, que levaram os fãs ao delírio. “Paradise (What About Us?)”, na qual Tarja Turunen originalmente participa, conta com com sua parte cantada e imagens no telão, o que trouxe aos fãs mais um momento simbólico. Toda a parte técnica, seja da banda quanto da equipe de som e iluminação foi pensada com muito carinho. As luzes, por exemplo, acompanharam tudo o que acontecia no palco, como em “Bleed Out”, o vermelho, bem presente, remetendo ao sangue. O espetáculo encerrou-se com “Mother Earth”, evidenciando o quanto a banda segue um nome de peso dentro do symphonic metal.

Algo muito importante de se destacar antes de qualquer coisa: ter uma banda nacional como headliner do festival foi um marco e tanto! E com toda a sua genialidade e história, o Angra claramente foi uma escolha certeira. Trazendo uma produção diferenciada, com direito a passarela, telões, efeitos remetendo à atmosfera das músicas, pirotecnia e tudo o que era possível para que o espetáculo fosse do mais alto nível, conduziu seu reunion como uma verdadeira celebração de seus trinta e cinco de história, com passado, presente e futuro coexistirem numa fração de pouco mais de duas horas de música. O show, dividido em três atos, iniciou seu primeiro ato com sua formação atual: Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria). Nos vocais, pudemos acompanhar em uma parte o encerramento de ciclo de Fabio Lione (vocal), performando as canções “Tides of Changes (Part I and II)”, “Lisbon” (que particularmente, voltou pra minha playlist, dada sua excelente execução)  e “Vida Seca”. Como este foi seu show de despedida, teve um espaço de fala, mas não era esperado que o mago fizesse uma participação maior, dado o tempo em que permaneceu na banda e seus trabalhos desenvolvidos? Fica aí o questionamento. Neste mesmo ato, acompanhamos também o início do ciclo de Alírio Netto como novo frontman da banda, que demonstrou estar prontíssimo para o que der e vier. Interpretou músicas da era André Matos de maneira autêntica e emocionante, incluindo “Wuthering Heights” performada no piano e a obra prima “Carolina IV”. No segundo ato, a formação “Nova Era”, que contava com Kiko Loureiro (guitarra), Aquiles Priester (bateria), Edu Falaschi (vocal) e os músicos remanescentes, Rafael e Felipe, fez o coração do fã errar as batidas, afinal, é um desses momentos que só acreditamos vendo, e vendo não acreditamos. Foi surreal este reencontro, assim como a carga emocional que ele carregou no decorrer deste ato. Qualquer polêmica ou mal-entendido que ocorreu acerca da banda, naquele momento estava bem distante do palco, que entregava amor e nostalgia. Até mesmo questões técnicas acabaram por não terem relevância diante do tamanho do acontecimento ali. Iniciando com “Nova Era” e destrinchando clássicos como “Millennium Sun”, a lindíssima “Heroes of Sand” e as épicas “Spread Your Fire” e “Acid Rain”, fizeram uma verdadeira viagem no tempo não só pelo álbum Rebirth, mas também Temple Of Shadows e até mesmo Aurora Consurgens, representada por “Ego Painted Grey”. Os destaques ficaram por conta de “Bleeding Heart”, a qual nas palavras do Edu, “fugiu do controle” ao furar a bolha após ganhar a versão “Agora Estou Sofrendo”, do Calcinha Preta. 

Ele pediu para que cada um cantasse sua versão preferida, mas o próprio mandou sua versão original, acompanhado de várias lanternas de celulares acesas, um ponto altíssimo e emocionante do show, assim como o encerramento deste ato, com “Rebirth”. O discurso de Rafael antecedendo a música também emocionou grande parte dos fãs, justamente por frisar recomeços e superação. No terceiro e último ato, tocavam “Silence and Distance”, com uma gravação de Andre Matos cantando sozinho ao piano sendo executada no sistema de som, enquanto imagens do eterno maestro eram exibidas no telão, logo trazendo Edu e Alírio nas vozes, os três guitarras para o palco e Bruno Valverde na bateria, transformando a homenagem em um dos momentos mais marcantes do show. “Late Redemption” marca a transição para a música que representa o espírito da banda: “Carry On!”, agora contando com todos no palco. Notei algumas diferenças no volume dos microfones dos vocalistas, mas foram detalhes que não se sobressaíram diante da grandiosidade que ali era assistida. Um encerramento digno deste reunion histórico, que com certeza ficará gravado no coração de todos que vivenciaram este momento.

Depois de tantos shows de tirar o fôlego e escolhas extremamente certeiras em seu line-up, o Bangers Open Air encerrou sua edição de 2026 deixando os fãs ainda mais ansiosos para o próximo capítulo, que já tem data marcada para acontecer nos dias 24 e 25 de abril de 2027. O festival demonstrou, mais uma vez, um crescimento evidente não apenas em proporção, mas também em maturidade estrutural, acertando em diversos aspectos e reagindo rapidamente aos pontos que exigiam ajustes ao longo do evento. Após uma experiência tão intensa e completa, resta torcer para que o Bangers siga como uma das maiores referências para os fãs brasileiros de metal.

 

Agradecimentos:
• Agência TAGA

• Bangers Open Air

Comentários