Resenha - Banda: Machine Head - Álbum: Unatoned (2025 - Shinigami Records)

 Por: Ricardo Turin


Se existe uma banda que aprendeu a transformar instabilidade em combustível criativo, essa banda é o Machine Head. Ao longo de mais de três décadas, os comandados por Robb Flynn atravessaram mudanças de formação, oscilações estilísticas e críticas ferozes — mas nunca perderam a capacidade de soar intensos, raivosos e, acima de tudo, verdadeiros.

No novo trabalho, o grupo mostra que ainda sabe como equilibrar brutalidade, melodia e discurso afiado. O álbum soa como uma síntese madura de todas as fases da banda: a agressividade crua dos primórdios, a veia groove marcante dos anos 2000 e a carga emocional que se tornou marca registrada nas composições mais recentes.

Peso moderno com alma old school

Logo nas primeiras faixas, fica claro que o Machine Head não está interessado em repetir fórmulas de maneira preguiçosa. Os riffs vêm densos, com afinação baixa e timbres encorpados, mas há um cuidado especial na construção das músicas. As estruturas alternam momentos quase claustrofóbicos com explosões catárticas que convidam ao headbanging imediato.

A bateria surge precisa e agressiva, sustentando levadas que transitam entre o groove cadenciado e ataques quase thrash. O baixo não fica soterrado — pelo contrário, ajuda a criar uma base pulsante que reforça o peso coletivo.

Robb Flynn: entrega emocional e agressiva

Vocalmente, Robb Flynn entrega uma performance intensa. Seus gritos continuam cortantes, mas o destaque está nas passagens melódicas — mais controladas, porém carregadas de emoção. As letras abordam temas como frustração social, conflitos internos e resistência pessoal, mantendo o discurso direto que sempre caracterizou a banda.

Há um senso de urgência nas composições. Não é apenas agressividade pela agressividade — existe propósito. Cada refrão parece construído para ser berrado ao vivo, enquanto os trechos mais atmosféricos dão profundidade ao conjunto.

Produção e identidade

A produção privilegia clareza sem sacrificar peso. As guitarras soam afiadas, mas não artificiais; a bateria tem impacto orgânico; e os vocais permanecem na linha de frente sem exageros de estúdio. O resultado é um álbum moderno, mas longe da frieza excessiva que muitas produções atuais apresentam.

O veredito

O novo álbum do Machine Head não é apenas mais um capítulo na discografia da banda — é uma reafirmação. Mostra um grupo que conhece sua história, entende suas virtudes e sabe como utilizá-las sem cair na autoparódia.

Não é um trabalho experimental, nem revolucionário. Mas é sólido, intenso e honesto. E, no universo do metal, honestidade ainda é uma das armas mais poderosas.

Para quem acompanha a banda desde os tempos mais brutais ou para quem chegou nas fases mais recentes, este lançamento funciona como um lembrete: o Machine Head ainda tem muito fogo para cuspir.

Se o inferno tem trilha sonora, o Heavy And Hell acaba de encontrar mais um capítulo dela.

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